sábado, 22 de junho de 2013

A Juventude Javali foi protestar





Voltando ao habitual, aproveito para escrever aqui as minhas impressões sobre esse protesto ocorrido aqui em Recife contra o aumento das passagens de ônibus, no dia 20-06. Por se tratar de um relato sobre a minha experiência, então aceitem isso como algo parcial, pífio e limitado. Perdi o timing porque acabei escrevendo demais e não tive tempo pra fazer tudo em um só golpe como gostaria, mas tá aí.

Bem: ao sair de casa, sigo para o ponto de ônibus como de rotina, e lá encontro algumas pessoas devidamente paramentadas para o protesto: cartazes, "carinhas-pintadas" e algumas vuvuzelas.
Legal, pensei comigo mesmo.
Passou o primeiro ônibus que levaria ao ponto de concentração, e apenas eu dei o sinal para parada.
Achei estranho, mas, ok.
Teria sido o único a subir, não fossem colegiais, que também queriam seguir para o protesto.
Mas antes das garotas subirem, a conversa:

- Motorista, esse é o ônibus que leva para o protesto?
- Protesto? Não! Esse ônibus faz o mesmo roteiro de todos os dias. Sei de protesto não.
- E qual o ônibus que leva para o protesto?

Pensei de novo comigo mesmo: Elas não sabem pra onde o ônibus estava indo, nem onde seria a concentração. O motorista também não fazia ideia. Elas não me pareciam (julgo) ter hábito de pegar um ônibus. Ele (julgo) não estava informado do que estava acontecendo no mundo. Ri sozinho e divaguei um pouco: Elas imaginavam que o Governo havia criado uma linha especial... Mas isso só acontece no Carnaval.

Cortei o assunto e disse pra elas que podiam subir, que o ônibus passaria por lá. Reticentes, elas subiram. Seguimos para a Praça do Derby. As ruas muito tranquilas me indicavam que alguma coisa estava acontecendo, mas que para mim estava dentro do esperado, afinal de contas, no evento criado no Facebook haviam mais de 100.000 pessoas confirmando participação.

Ri sozinho enquanto lembrava o quão maravilhoso é andar ônibus a essa hora da tarde sem ter que enfrentar engarrafamentos! Parecia até feriado! Normalmente em feriadões a cidade fica livre e os ônibus vazios, mas como tinha muita gente paramentada no ônibus, estava me sentindo num dia de Carnaval. O ônibus seguiu até metade do caminho. Tivemos que completar o resto do percurso a pé, porque as vias estavam fechadas. Assim como eu, muitas outras pessoas estavam seguindo o mesmo percurso. No caminho outras mais foram se chegando e em pouco tempo já éramos uma multidão. No caminho, pessoas com caras pintadas, cartazes levantados e algumas palavras de ordem. Não havia ao longo do trajeto nenhum bloqueio policial, mas os caras-pintadas já ensaiavam um coro pedindo a não-violência, com a mesma entonação (incluindo o sotaque) das imagens que chegavam dos protestos de São Paulo.
Achei estranho e aquele sotaque forçado, mas, beleza! Ponderei que esse talvez fosse um dos efeitos colaterais da globalização.
Chegando à Praça do Derby, vi muita gente! Mas muita gente mesmo! Nem acreditava que seriam tantas pessoas assim, e por um momento pensei na força que todo esse pessoal organizado poderia realizar.
Mas esse pensamento não foi muito longe.
Pessoas se abraçando, registrando os encontros e tirando fotos ao lado da bandeira nacional, pintando cartazes e retocando a guache verde e amarela para dali a pouco, iniciarem a marcha rumo ao centro da cidade.
Como alguns medias disseram depois, parecia mais um desfile cívico.

Encontrei alguns amigos, trocamos ideias a respeito do movimento e concordamos que apesar dos tropeços, deveríamos estar ali para vivenciar aquilo tudo e depois transformar isso em reflexões. Isso aqui está longe de uma reflexão no sentido rigoroso do processo, mas já indica o que venho pensando. Iniciamos a marcha rumo ao centro. A multidão - já ensaiada - entoava o Hino Nacional (mas apenas a primeira parte) e o de praxe “Sou brasileiro”. Mas até aí, nada. Ao meu redor, um ambiente confortável até demais para um protesto. Pessoas sorridentes, mais fotos. Gente bonita, elegante e sincera, curtindo aquilo tudo numa relax, numa tranquila e numa boa.

Conversando com meu amigo, vimos que aquela camada social mais acidentada e vulnerável não estava ali. Ele me falou que mais cedo perguntou a um flanelinha se ele não entraria no manifesto, e ele respondeu secamente que aproveitaria o movimento para trabalhar mais e conseguir um trocado extra, porque estava com fome e precisava comer. Que a classe média historicamente tenha sido o pivô das transformações, isso é fato. Mas esse ímpeto de mudanças eu sinceramente não conseguia perceber. Precisávamos sair urgentemente dali. 

E no caminho, mais demonstrações parciais de amor à pátria.
Digo parciais porque o Hino nunca seguia até o final.

Vi pessoas na sacada de seus apartamentos observando a movimentação e filmando. Placas levantavam com os dizeres #VemPraRua e a multidão gritava em uníssono esse convite, gentilmente declinado pela platéia. Em cima do muro, jovens bronzeados de bermudão, óculos escuros e munidos de latas de cerveja cortejavam as meninas, que gentilmente declinavam. Tudo com muita civilidade e respeito, num ambiente bastante democrático. Clean, soft e light.

Em plena Avenida, ouvi um levante. Gritos na multidão desenfreados, aparentando ser um confronto com a polícia. Não era nada de mais: Fizeram uma ola, como dessas que se veem nos estádios e nas micaretas. Definitivamente, estava em plena “festa da democracia”, como alguns jornalistas costumam se referir ao período eleitoral. Era uma festa mesmo, puro entretenimento.
Não era um protesto para ser levado a sério.
Tanto que a polícia nem teve trabalho. Também não desejaria que tivesse, mas é que eu não via a indignação no rosto das pessoas como normalmente se vê num protesto. Afinal de contas, estávamos na rua pelo quê? Não havia clima de revolta, tampouco desobediência civil. Estava tudo muito pacífico, e aí quero salientar que existem muitas sutilezas entre o pacifismo e o passivismo. Por favor não confundam!

Vi que a coisa foi toda muito bem projetada, pasteurizada e embalada a vácuo. Na página do evento do Facebook, muitas enquetes foram lançadas, das quais destaco algumas: “Qual a cor da roupa que devemos ir?” “Que música devemos cantar lá?” “Quais as nossas principais reivindicações?” “E se chover?” “O que fazer se a polícia agir com violência?” “Pra onde devemos ir?” “O que fazer com as bandeiras dos partidos políticos?”

Apesar das superficialidades, aquele aglomerado me fez sentir uma força descomunal, produzida por aquela energia de multidão. Senti a força que existe e reside no povo, que embora esteja anestesiado, possui. Essa energia que indica uma força, demonstrada a todo momento nas bandeiras agitadas e em cartazes com dizeres como #OGiganteAcordou.
Aí eu pergunto: Como levar a sério uma multidão que diz que "saiu do Facebook para entrar para História" e na sua revolução se utiliza de virais de montadora de carro e de fábrica de uísque?

Pra mim, a coisa toda já deu o que tinha que dar, mas como precisava de ônibus para voltar para casa, precisava seguir até o Cais de Santa Rita. Para minha surpresa, na Pracinha do Diário ouvi as primeiras manifestações pelo Passe Livre. Para que vocês tenham uma noção do tanto que eu andei na passeata, fiz um mapinha, destacando o que achei relevante.



Depois disso tudo, fui para o Terminal de ônibus para poder voltar pra casa. E lá vi baterem o último prego do caixão. Dessa vez mais duas meninas, agora retornando do protesto para suas casas.

- Ei! Residencial Boa Viagem! Será que esse passa no shopping?
- Passa sim.
- E quanto é a passagem?


Falam de uma primavera brasileira, mas, meus amigos, estamos em pleno outono, e possivelmente caminhando para um longo inverno, com suas chuvas torrenciais. Falta muita luz pra essa juventude desabrochar e realizar uma verdadeira primavera.
Não adianta jogar carbureto, porque essas bananas não vão amadurecer assim.

Não sou o único desconfiado: Estamos brincando de revolução

UPDATE 2

Não acordemos esse gigante