sexta-feira, 31 de maio de 2013

É direito pedir direitos?

"A greve, no fundo, é a linguagem dos que não são ouvidos." 
 Martin Luther King Jr.
pastor protestante e ativista político americano

 

acesse facebook.com/EuSouProfessor e se informe dos locais


Mais um ano, e mais uma vez vamos às ruas para mostrar as dificuldades que estamos passando. Fiz um pequeno desabafo dias atrás sobre a carga que nós professores temos que suportar.

Ontem (29-05), o Sindicato dos Professores do Estado de Pernambuco (SINPRO-PE), entidade do qual eu e todos os demais professores fazem parte, decretaram estado de greve, após 6 rodadas de negociação com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de Pernambuco (SINEPE-PE), sem perspectiva de progressos.
Num dos relatos colhidos no blog de Jamildo vemos o seguinte:
“O Sinpro Pernambuco e o Sinepe já realizaram cinco Rodadas de Negociação que não apresentaram nenhum avanço. O processo de negociação chegou a uma encruzilhada. O sindicato patronal não considera nenhuma das exigências apresentadas pelos professores e trabalha com a lógica de eliminar direitos, enquanto os professores estão convictos da possibilidade de os patrões concederem um aumento real aos salários”
Segundo esse relato, o nível de descaso e intransigência por parte dos negociadores do Sinepe beira o escárnio e o abuso. Admitir negociação, desde que nós professores abríssemos mão de direitos conquistados historicamente é uma coisa absurda. Seria justamente jogar contra tudo aquilo que eles, os donos de escola, supostamente defendem. Não posso fazer generalizações, porque sei que nem todos os proprietários de escola possuem esse entendimento, todavia esse é um discurso praticado pelo sindicato da categoria, o que em certo sentido acaba respingando inclusive nos que pensam diferente.

Esse é um dos pontos que o Sinepe defende, preocupado com a maximização do lucro em detrimento à qualidade do ensino a sustentabilidade econômica das escolas.
Nos últimos anos tem sido assim. Só com a mediação do Estado é que as coisas avançam, mas sempre com muita dificuldade. Neste ano, retomamos uma pauta de exigências que, aos olhos dos donos de escola pode parecer abusivo, afinal de contas, o sonho deles é que um dia nós paguemos para trabalhar mas tendo como perspectiva os progressos econômicos que o Brasil vêm gozando, e em especial o nosso Estado de Pernambuco, tínhamos a expectativa de que esse ano poderíamos sair da campanha com perspectivas melhores de trabalho e com um ganho real em nossos salários. Falo ganho real porque os reajustes para a categoria são feitos apenas repondo a inflação do período.

E falando em inflação, imagine que todo os anos o reajuste das mensalidades escolares aumentam em média 12%. Então imagine: Todos os pais (incluindo professores que pagam mensalidades de filhos, dependentes e outros) já iniciam o ano pagando as mensalidades com esse reajuste. O trabalhador comum pode pagar essa diferença desde janeiro, quando passa a vigorar o novo salário mínimo. Mas para nós, esse reajuste só chegará após todas essas rodadas de negociações. Estamos no mês de maio e ainda não temos previsão de quando isso será resolvido. Enquanto isso, as mensalidades escolares vão sendo pagas já com esse reajuste desde janeiro. Nós, professores, só teremos acesso a parte dessa fatia na metade do ano! E assim, o salário de professor - que já é pequeno -  vai sendo corroído pela alta dos preços. Não me espanta a quantidade de estudos feitos sobre o desinteresse na carreira de professorMas o discurso corrente é de progressos. Mas, progressos para quem? 


Queremos dignidade e respeito. Não precisamos de esmolas.
Aí retomo o tom do desabafo anterior e me questiono se, do ponto de vista financeiro, fiz a escolha mais acertada em ser professor: Analisem: o reajuste salarial chega sempre depois e sempre menor do que deveria, a quantidade de alunos nas salas a cada dia que passam só aumenta, a qualidade do ensino de maneira geral vai de mal a piorE é por isso que eu defendo o direito de greve, como forma legítima de reivindicação.




"A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio. O verdadeiro vizinho vai arriscar sua posição, seu prestígio e até mesmo sua vida para o bem-estar dos outros."

Martin Luther King Jr. 



UPDATE:

 

domingo, 26 de maio de 2013

Docência e decência

Há algum tempo venho refletindo sobre a minha escolha profissional e não raras vezes o sentimento que me chega é de tristeza. Mas uma tristeza profunda. E com ela também aquela sensação de incerteza que aparece quando penso no meu futuro, e vejo uma cortina de fumaça, dessas tão densas que os pensamentos simplesmente desaparecem, engolidos pela escuridão. Vou fazer aqui um pequeno ensaio, bagunçado mesmo e sem tempo pra maiores revisões, afinal de contas, hoje é domingo e eu preciso trabalhar.

Estou prestes a inteirar 10 anos de sala de aula. Ou melhor, 10 anos de sala de aula exercendo o papel de professor, porque de sala de aula mesmo tenho 27 anos (e contando) como aluno. Tive a oportunidade de perceber os dois lados do processo e ver como a Educação de maneira geral vem passando por um processo de franca degeneração.

Vivemos claramente uma profunda crise de valores dentro das escolas, crises que a meu ver estão mais atreladas a questões econômicas e sócio-políticas que propriamente didáticas: E para mim a impossibilidade de dissociar os procedimentos didáticos do contexto social em que a formação pedagógica acontece é uma coisa bastante óbvia, mas quando me refiro a esses fatores externos, quero dizer que boa parte dos problemas vivenciados hoje na escola não são um problema necessariamente da escola. Não quero retirar da escola seu papel de instituição mediadora, tampouco fazer uma divisão das competências que lhe caberiam, mas apenas mostrar que a escola não é um ambiente neutro, mas um espaço em que essas tensões e conflitos se manifestam de forma aguda.

Uma visão mais rasteira diria que a resultante disso é o quadro geral de indisciplina e dos alunos, manifesta na queda de rendimento ano após ano. Numa sociedade com hábitos hiperativos, hipermidiáticos e hipermodernos, nada mais natural (e conveniente) que depositar seus filhos na escola e esperar que ela consiga equacionar esses problemas (em todo ou em parte). É natural que nesta lógica se aumentem as expectativas em torno da escola e sobre a figura do professor.


Essa charge do Pierre Chaunu ilustra muito bem o que acabei de dizer.

Para dar conta dessas novas exigências da contemporaneidade, por um lado a escola se reinventa, investindo massivamente em sua estrutura física. Ampliação de salas, adaptação do espaço para alunos com necessidades especiais, atualização dos equipamentos comuns e o incentivo para a implementação de tecnologias voltadas para o ensino, além de muito marketing.


Charge de Cristian Dzwonik (Nik)

Mas, e quanto a nós, professores? Caberia ao professor o papel de negociante e mediador dessas tensões não resolvidas pela propaganda das Escolas: Será ele o grande responsável por conquistar os alunos. Mas como podemos conquistar algo que a princípio seria formado para a liberdade? Caberia aqui uma reflexão mais apurada.

É natural que todas essas expectativas de progressos futuros gerem uma grande carga emocional, que no sabor dos embates acaba recaindo nas costas do docente. Quero falar a partir dessa perspectiva. Nós, professores, estamos passando por uma crise muito grave que está - como falei anteriormente, atrelada a fatores externos e que independem de nosso querer: Dia após dia, o número de profissionais vem decrescendo seja pela falta de reconhecimento, seja pela baixa remuneração. Infelizmente muitos acabam abandonando a escola. Enquanto isso, os que permanecem lecionando tem uma carga de trabalho que só aumenta e com ela os problemas de saúde, como por exemplo, o estresse.

Fica difícil fazer aqui uma divisão entre o que é de direito, o que é dever e o que acontece de fato nas instituições de ensino hoje, mas esse não é o meu propósito agora. Estou apenas refletindo sobre o papel da escola como um espaço de trocas: Um espaço amplo onde relações de troca são estabelecidas desde a sala de aula até a diretoria (passando é claro, pela secretaria e pela tesouraria, e é bom que nunca esqueçamos disso). Mas voltando ao conceito de solidariedade e da ideia da escola como um espaço de práticas econômicas, num sentido maussiano, percebo que há algo errado nessa esfera pretensamente pautada na dádiva.


Eu já me peguei pensando nisso várias vezes, e acho essa tirinha é procedente.

E falando em comércio, me indago aqui sobre a sustentabilidade dessas relações. Eça de Queiroz ensina que "o verdadeiro comércio inspira virtudes próprias como a economia, a boa-fé, a exatidão, a ordem e atividade leal." Como podemos falar em sustentabilidade, se os salários dos professores são repostos sempre abaixo da linha da inflação e a nova visão escolar dos gestores das escolas não passa de uma página em branco? O futuro dos professores é incerto e nem um pouco promissor.

Sinceramente não sei a que ponto chegaremos, e sei que hoje qualquer tentativa de previsão de minha parte não será nada animadora. O que eu acho interessante nos congressos sobre educação é que se fala sobre absolutamente tudo. Das instalações arquitetônicas às novas perspectivas tecnológicas, em que o professor é uma figura cada vez mais virtual. Falar em dinheiro numa sociedade capitalista é natural e o desejável, e me impressiona ver como essas questões são tratadas como um tabu nas escolas (quando se refere ao salário de um professor). Por isso qualquer discurso sobre a educação hoje necessita passar pelo prisma da valorização do docente. Pois do contrário, para mim é um discurso vazio e mentiroso.

Bom, antes que apareça alguém da turma dos incomodados que se mudem, digo que sou uma pessoa extremamente realizada. Tive total liberdade e apoio da minha família para optar e fazer o curso que quisesse e hoje sustento minha família trabalhando com o que gosto. Quando olho pra trás e vejo as outras oportunidades que deixei, reconheço que talvez fosse até mais reconhecido e certamente teria uma melhor remuneração. Mas não se trata (apenas) de status e renda.

Falo de dignidade e decência.

E é por isso que estou aqui.