domingo, 26 de maio de 2013

Docência e decência

Há algum tempo venho refletindo sobre a minha escolha profissional e não raras vezes o sentimento que me chega é de tristeza. Mas uma tristeza profunda. E com ela também aquela sensação de incerteza que aparece quando penso no meu futuro, e vejo uma cortina de fumaça, dessas tão densas que os pensamentos simplesmente desaparecem, engolidos pela escuridão. Vou fazer aqui um pequeno ensaio, bagunçado mesmo e sem tempo pra maiores revisões, afinal de contas, hoje é domingo e eu preciso trabalhar.

Estou prestes a inteirar 10 anos de sala de aula. Ou melhor, 10 anos de sala de aula exercendo o papel de professor, porque de sala de aula mesmo tenho 27 anos (e contando) como aluno. Tive a oportunidade de perceber os dois lados do processo e ver como a Educação de maneira geral vem passando por um processo de franca degeneração.

Vivemos claramente uma profunda crise de valores dentro das escolas, crises que a meu ver estão mais atreladas a questões econômicas e sócio-políticas que propriamente didáticas: E para mim a impossibilidade de dissociar os procedimentos didáticos do contexto social em que a formação pedagógica acontece é uma coisa bastante óbvia, mas quando me refiro a esses fatores externos, quero dizer que boa parte dos problemas vivenciados hoje na escola não são um problema necessariamente da escola. Não quero retirar da escola seu papel de instituição mediadora, tampouco fazer uma divisão das competências que lhe caberiam, mas apenas mostrar que a escola não é um ambiente neutro, mas um espaço em que essas tensões e conflitos se manifestam de forma aguda.

Uma visão mais rasteira diria que a resultante disso é o quadro geral de indisciplina e dos alunos, manifesta na queda de rendimento ano após ano. Numa sociedade com hábitos hiperativos, hipermidiáticos e hipermodernos, nada mais natural (e conveniente) que depositar seus filhos na escola e esperar que ela consiga equacionar esses problemas (em todo ou em parte). É natural que nesta lógica se aumentem as expectativas em torno da escola e sobre a figura do professor.


Essa charge do Pierre Chaunu ilustra muito bem o que acabei de dizer.

Para dar conta dessas novas exigências da contemporaneidade, por um lado a escola se reinventa, investindo massivamente em sua estrutura física. Ampliação de salas, adaptação do espaço para alunos com necessidades especiais, atualização dos equipamentos comuns e o incentivo para a implementação de tecnologias voltadas para o ensino, além de muito marketing.


Charge de Cristian Dzwonik (Nik)

Mas, e quanto a nós, professores? Caberia ao professor o papel de negociante e mediador dessas tensões não resolvidas pela propaganda das Escolas: Será ele o grande responsável por conquistar os alunos. Mas como podemos conquistar algo que a princípio seria formado para a liberdade? Caberia aqui uma reflexão mais apurada.

É natural que todas essas expectativas de progressos futuros gerem uma grande carga emocional, que no sabor dos embates acaba recaindo nas costas do docente. Quero falar a partir dessa perspectiva. Nós, professores, estamos passando por uma crise muito grave que está - como falei anteriormente, atrelada a fatores externos e que independem de nosso querer: Dia após dia, o número de profissionais vem decrescendo seja pela falta de reconhecimento, seja pela baixa remuneração. Infelizmente muitos acabam abandonando a escola. Enquanto isso, os que permanecem lecionando tem uma carga de trabalho que só aumenta e com ela os problemas de saúde, como por exemplo, o estresse.

Fica difícil fazer aqui uma divisão entre o que é de direito, o que é dever e o que acontece de fato nas instituições de ensino hoje, mas esse não é o meu propósito agora. Estou apenas refletindo sobre o papel da escola como um espaço de trocas: Um espaço amplo onde relações de troca são estabelecidas desde a sala de aula até a diretoria (passando é claro, pela secretaria e pela tesouraria, e é bom que nunca esqueçamos disso). Mas voltando ao conceito de solidariedade e da ideia da escola como um espaço de práticas econômicas, num sentido maussiano, percebo que há algo errado nessa esfera pretensamente pautada na dádiva.


Eu já me peguei pensando nisso várias vezes, e acho essa tirinha é procedente.

E falando em comércio, me indago aqui sobre a sustentabilidade dessas relações. Eça de Queiroz ensina que "o verdadeiro comércio inspira virtudes próprias como a economia, a boa-fé, a exatidão, a ordem e atividade leal." Como podemos falar em sustentabilidade, se os salários dos professores são repostos sempre abaixo da linha da inflação e a nova visão escolar dos gestores das escolas não passa de uma página em branco? O futuro dos professores é incerto e nem um pouco promissor.

Sinceramente não sei a que ponto chegaremos, e sei que hoje qualquer tentativa de previsão de minha parte não será nada animadora. O que eu acho interessante nos congressos sobre educação é que se fala sobre absolutamente tudo. Das instalações arquitetônicas às novas perspectivas tecnológicas, em que o professor é uma figura cada vez mais virtual. Falar em dinheiro numa sociedade capitalista é natural e o desejável, e me impressiona ver como essas questões são tratadas como um tabu nas escolas (quando se refere ao salário de um professor). Por isso qualquer discurso sobre a educação hoje necessita passar pelo prisma da valorização do docente. Pois do contrário, para mim é um discurso vazio e mentiroso.

Bom, antes que apareça alguém da turma dos incomodados que se mudem, digo que sou uma pessoa extremamente realizada. Tive total liberdade e apoio da minha família para optar e fazer o curso que quisesse e hoje sustento minha família trabalhando com o que gosto. Quando olho pra trás e vejo as outras oportunidades que deixei, reconheço que talvez fosse até mais reconhecido e certamente teria uma melhor remuneração. Mas não se trata (apenas) de status e renda.

Falo de dignidade e decência.

E é por isso que estou aqui.