quinta-feira, 27 de julho de 2017

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Soneto de Abril

Soneto de Abril

Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d'água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

Os Melhores Poemas de Lêdo Ivo. São Paulo: Ed. Global, 1983. 2.a edição, 1990.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Quis custodiet ipsos custodes?


Primeiramente eu gostaria pedir para que deixassem o Thomas Hobbes em paz! Não "regredimos para o estado de natureza", como algumas pessoas tem alardeado pela rede. Não podemos ter regredido para esse ponto, pois as instituições ainda existem, e apesar de funcionarem parcamente, estão aí. Existem leis, existem instituições e há um governo, apesar das leis serem desrespeitadas, das instituições estarem sucateadas e do governo se omitir das questões sociais, mas estes personagens continuam por aí.

Mas, e o povo? Cadê todas aquelas pessoas que foram às ruas pra bradar o fim da corrupção, meses atrás? Muitos estão agora criticando os policiais pela greve, imputando à categoria a responsabilidade pelo caos. Essa camada merece uma consideração a parte,
dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras, encontrando-se destituído de outros meios de defesa, está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma, são compradas mas com elas não se pode contar e, no momento oportuno, não se torna possível utilizá-las. Maquiavel, O Príncipe. Cap. XVII
Não são bandidos apenas os que estão aproveitando essa omissão da vigilância para promover saques e essa onda de violência. Existem muitos "cidadãos de bem" que se aproveitaram das lojas arrombadas e dos caminhões revirados para tirar a sua vantagem.

A grande questão é que se temos um Estado que agoniza com uma crise endêmica e por outro lado assistimos ao desenvolvimento de um projeto para a cidadania ainda insipiente, que é ávida por direitos, mas descumpridoras de seus deveres e ignorantes da própria condição.

Não podemos sequer falar em retrocesso para um Estado que desconfio que nunca saímos de fato. Simplificar a teoria do Hobbes pra dizer que estamos numa pior é ignorar as sutilezas dessa transição entre os estados e ainda considerar a hipótese de termos vivenciado um dia a paz e a segurança que a civitas poderia proporcionar aos seus habitantes.

É comum aqui no Brasil se colocar a culpa da greve nos grevistas, além de toda a responsabilidade pelas perdas e danos que causadas pela paralisação. A sociedade ainda não compreendeu que isso faz parte do jogo democrático e que lamentavelmente as perdas são grandes. Do lojista saqueado ao trabalhador assaltado nos ônibus. Ninguém ganha com isso.

Mas experimentem inverter o filtro e o resultado não será diferente.

Num outro post em que eu falei das crise intitucional e da situação da Polícia, não mencionei os abusos que esses profissionais passam diariamente. São mal pagos, são mal vistos pela sociedade e mal quistos.

O argumento de inconstitucionalidade é legal, mas não considero esse argumento legítimo, porque não dá amparo ao trabalhador que escolheu esse ofício. E se observarem bem, verão que o Estado não garante as condições mínimas para o cumprimento do cargo. São coletes com blindagem vencida, e policiais civis trabalhando com armamentos insuficientes. Adicione ainda a gratificação de apenas R$ 500,00 pelo risco de trabalhar na rua e o resultado de uma greve não poderia ser diferente.

Há quem ainda argumente que a escolha pela carreira policial foi um desejo do indivíduo e que a submissão à investidura do cargo público deve ser plenamente acatada. O nível sordidez destas pessoas é algo a se considerar, por mesmo com tudo isso, ainda incriminam os policiais, negando-lhes o direito de manifestação, desta vez como humanos e cidadãos que de fato são.

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no Artigo XXIII diz que
1.Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.
O direito à desobediência civil é inalienável ao homem livre e consciente de sua condição, mesmo que este no seu cotidiano esteja "no outro lado" das trincheiras, defendendo muitas vezes aquele que nos oprime. Nesse momento, enquanto estão em greve, por instantes estamos juntos do mesmo lado e seria pouco inteligente de minha parte criticá-los por defenderem seus direitos. Porque em se tratando da exploração sofrida, nos unimos pela mesma dor.

O Vosso tanque General, é um carro forte:
Derruba uma floresta e esmaga cem homens
Mas tem um defeito:
Precisa de um motorista 

O vosso bombardeiro, General, é poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade e transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito:
Precisa de um piloto. 

O homem, meu general, é muito útil
Sabe voar e sabe matar
Mas tem um defeito:
Sabe pensar

quarta-feira, 9 de abril de 2014

"Salvem a professorinha"

Atendendo a um pedido do meu amigo +Joao Paulo vou tecer algumas considerações sobre o imbroglio envolvendo a Valesca Popozuda numa questão de filosofia.

O autor da prova, o professor Antonio Kubitschek disse em uma entrevista que a fez em tom de provocação para a imprensa.

Na questão, que reproduzo em seguida, faz a alusão à Valeska como sendo uma "grande pensadora contemporânea".



Epistemologicamente, é um grande equívoco chamá-la de pensadora. Faltariam à cantora aqueles elementos considerados fundamentais para tanto: A ausência de uma sistematização de pensamento, de um rigor conceitual e técnico, além da inexistência de um arcabouço filosófico. A falta desse conjunto a levaria para longe desse patamar. Não sei da formação do Prof. Kubitschek, e também não pretendo fazer disso um cavalo de batalha, mas qualquer estudante de filosofia saberia muito bem fazer esse discernimento.

Todavia, o uso das aspas, como utilizei acima, poderia matizar melhor a questão e deixá-la em conformidade com o que reza a teoria, e isso talvez aplacasse os ânimos do público. Mas duvido muito que os resultados dessas ações seriam diferentes do que vimos nas redes sociais.

Seguindo pelo viés da polêmica, vejo  que o professor foi bastante feliz, pois conseguiu mobilizar as atenções da imprensa para a escola. Nas palavras do professor, “muitas vezes, acontecem coisas positivas no colégio, como exposição de fotografia, e ninguém da imprensa nunca foi lá mostrar”. (até então contabilizei 10 entrevistas concedidas à jornais e emissoras de tv, fora os artigos e reportagens a respeito).

Todas as pessoas diretamente envolvidas no processo, do professor aos alunos, passando pela coordenação, estavam cientes e contextualizados com o problema, que girava em torno do debate sobre a formação moral e os valores da sociedade (e do quanto a imprensa contribuía para esse processo). Enfim, todos estavam conscientes, menos a grande imprensa - que juntamente com as redes sociais orquestraram uma verdadeira pilhagem pessoal. A voracidade com que trataram de ridicularizar o professor, antes mesmo de qualquer apuração dos fatos, era algo de se esperar da turba que frequenta o Facebook, mas não de jornalistas profissionais. Poucos foram até o professor indagar o porque dessa prova, e a maioria já tratou de preparar o calvário do professor, da escola e da educação brasileira como um todo.

(Gostaria de saber o que esse povo revoltoso andou lendo nos últimos meses)

Vejam bem, não estou na posição de inquisidor ou de especialista em educação para atestar "o fim da escola", pois acredito apesar de caminhando para esse fim - felizmente, ainda estamos bem longe disso. Mas não é de hoje que eu venho falando da crise da educação, muito mais séria que a questão da Valesca Popozuda. Não se trata da crise de um determinado modelo pedagógico (e o Paulo Freire não tem nada a ver com isso), mas de um projeto de educação que talvez sequer tenha existido de fato.

A grande tragédia da educação no Brasil é ver a escola agonizar, gritando desesperada e tendo que cometer essas desmesuras pra chamar atenção para uma questão básica, que é da sobrevivência. Essa é a minha interpretação para a questão da Valesca Popozuda. Um grito de agonia.

E esse é o quadro agonizante em que nos encontramos hoje. Falta planejamento, falta incentivo para os docentes, falta estrutura para pensar um futuro melhor. E caso eu esteja equivocado, me apontem aqui um governo que tenha um projeto educacional realmente consistente e que contemple essas demandas que falei há pouco. O que temos na real são professores sobrevivendo com salários miseráveis, escolas sobrevivendo com investimentos pífios na sua estrutura e na qualificação de seus espaços, e planos de educação sendo feitos com perspectivas curtas e moldados de acordo com a ideologia política e econômica vigente.

O mais triste e doloroso disso tudo é que quando a grande massa deixar de bradar absurdos contra o professor, a escola e a educação, virarão as costas para xingar outro problema, que certamente será mais interessante. Porque no final das contas, é tudo uma questão de indiferença.

Ficarei ainda mais preocupado quando acontecer algo semelhante e ninguém ver nenhum problema nisso.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dia 26

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção.

Carlos Drummond de Andrade, dezembro de 1968.


É dezembro e o meu coração está em festa. Época boa para rever família e amigos queridos, de celebrar a União entre as pessoas e partilhar momentos bons ao lado dos que estão conosco. Perto ou longe, mas sempre no coração. Momento para refletir sobre o traçado feito ao longo do ano e vislumbrar o que será dos próximos.

E firmar o pensamento e o sentimento no Grande Mestre.


Hoje, dia 26 de dezembro, é uma data triplamente especial para mim.

No dia 26 de dezembro de 1981 meus pais se casaram. E daí iniciaram a minha amada família.
No dia 26 de dezembro de 2002 nasceu meu filho +Sidarta Britto. E me deu um motivo pra seguir adiante.
No dia de dezembro de 2007 iniciei o namoro com a minha esposa +Syonara Azevedo. E me sinto amado.

São três grandes salves para esses que fazem da minha um tantinho melhor!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

gotas de chuva na minha cuíca


(Hal David / Burt Bacharach)


Raindrops keep fallin' on my head
And just like the guy whose feet are too big for his bed
Nothin' seems to fit
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'

So I just did me some talkin' to the sun
And I said I didn't like the way he got things done
Sleepin' on the job
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'

But there's one thing I know
The blues they send to meet me won't defeat me
It won't be long till happiness steps up to greet me

Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me

It won't be long till happiness steps up to greet me

Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me



Nota: A versão de B.J. Thomas é a 'standard', mas não chega nem perto dos arranjos suingados de Cesar Camargo Mariano e Banda e da voz de Wilson Simonal.

Outra nota: Tem um outro registro muito simpático pra essa música feita pelo glorioso Trio Mocotó, com Fritz Escovão cantando por meio de uma cuíca (versão-título que escolhi para o post).


sábado, 12 de outubro de 2013

A existência de Deus - por Pedro Bandeira

Do poeta e repentista Pedro Bandeira

deus está nas ideias de platão
aristoteles, confúcio, cícero e dante
gutemberg, paré, galeno e kant
leonardo, beethoven e salomão
quem afirma que deus é ficção
é nocivo pequeno e ignorante
para o mundo é insignificante
porque deus é a própria inteligência
é a luz sublimada da ciência
transformando uma célula num gigante

deus está no sol quente causticante
nas camadas sutis e argilosas
nas chapadas das serras arenosas
e nas cascatas do bosque horripilante
nas jornadas saudosas do emigrante
que se vive a sofrer não se maldiz
deus existe no caule e na raiz
na bondade, no amor, na esperança
no sorriso inocente da criança
que não sabe o que é ser infeliz

deus está no voar dos colibris
única ave que voa marcha ré
se bota a marca de força e não dar fé
que a cabeça está perto chassis
deus existe nos verdes alcantis
e nos talhados globais que o mundo tem
no chacal, no pavão e no vemvem
na floresta assombrosa, no arbusto
na caneta de ouro do homem justo
que não rouba um tostão de seu ninguém

deus existe no mar com suas dunas
nas colcheias dos vales nordestinos
nos sussurros dos córregos cristalinos
nas jazidas de ouro do amazonas
nas ingênuas libélulas que são donas
das goticulas de orvalho das manhãs
nas gaivotas do mar, nas jaçanãs
no segredo do fogo e nas centelhas
e no zubido sonoro das abelhas
festejando um partido de milhães

deus está num foguete e num avião
num trabalho paralepipédico
nas ciências das mãos do próprio médico
que tentou transplantar o coração
no relâmpago, na chuva, no trovão
e nas fagulhas que vão na correnteza
na paixão, na humildade, na nobreza
nos tecidos da teia de aranha
e no poeta no pé de uma montanha
recebendo as lições da natureza

deus existe em todos os minerais
nos insetos, nas aves, nos abrolhos
na lanternas dos próprios olhos
nas camadas das nuvens pluviais
na metamorfose dos rosais
na essência da flor e no paúro
nas estrelas, no chão, no céu azul
no escuro, no ar, na lua clara
no calor do deserto de saara
e na frieza sem fim do pólo sul

deus está na criança abandonada
que soluça com fome e não comenta
no silêncio de um louco que se senta
na palhoça da beira da estrada
nos rangidos dos remos das jangadas
que uma parte é molhada e a outra enxuta
deus está no preâmbulo da conduta
do poeta que canta a sua história
nas medalhas de ouro da vitória
de quem parte para o campo e ganha a luta

deus existe em um cérebro eletrônico
nos cristais que dão vida ao microfone
no mistério da voz do telefone
e nos artistas atuais do mundo harmônico
num piano melódico e sinfônico
na energia atômica e na corrente
no progresso do mundo atualmente
na caneta, na tinta e no papel,
e no milagre infinito da embratel
que atira a imagem em nossa frente

deus está numa máquina de escrever
na mecânica da nova matemática
na consciência tranquila da gramática
e numa fita que fala e ninguém vê
sua faixa estirar nem encolher
entre a cor, a cadência e a qualidade
dependendo de ter velocidade
ela grava, desgrava e pede bis
da maneira que a boca humana diz
ela canta pra toda humanidade

deus está nesse encontro entre nós
nos amigos que sentem meus problemas
nos adultos que escutam meus poemas
e nas crianças que aplaudem a minha voz
já esteve, ainda está, e logo após
reunidos daqui viajaremos
deus é tudo na vida o que nós temos
crer em deus é ter flores na memória
é saber que a morte é grande glória
para a vida eterna que teremos!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Efeito Bumerangue


Que tipo de preparação (emocional/técnica) que esses policiais recebem para lidar com manifestações públicas? Entendo que são pessoas que estão ali expostas a todo tipo de riscos, mas não podemos esquecer que são antes de tudo, servidores da sociedade, e com isso quero rememorar uma das máximas da corporação, que é servir e proteger. Esse flagrante do vídeo mostra que o discurso não de fato aquilo que se pratica, quando o policial já desce da viatura com arma em punho e atirando contra os manifestantes.

Não vi diálogo, nem cuidado em proteger os cidadãos, tampouco inteligência para mediar um conflito, que poderia ter descambado para algo bem pior. O que vi foi apenas a força bruta e a violência explícita praticada pela polícia.

Por razões históricas, há muito que se fala sobre a extinção da PM. Temos aí mais uma prova material da incongruência desse tipo prática institucional para a época em que vivemos.

Além dessa cena de barbárie, soube que os vitrais do Cine São Luís foram destruídos, bem como alguns ônibus depredados e um bicicletário incendiados. Na minha opinião, foi uma ação infeliz de quem o fez. Contudo não nenhuma evidência absoluta que vincule os manifestantes ao quebra-quebra. O culpa certamente cairá para o lado dos manifestantes, mas é provável que nesse meio, além das pessoas envolvidas na mobilização estejam também pessoas infiltradas e com outros propósitos e aí é preciso contextualizar e ponderar bem, para que não aconteça nenhuma injustiça. Na minha militância pessoal já vi coisas horríveis acontecerem durante as manifestações e em muitos casos o julgamento se dá nos detalhes que nem sempre estamos atentos para perceber.

Sou veementemente contra a depredação de bens para uso comum, mas diante do que acabo de ver nesse vídeo, me pergunto: Quem primeiro acendeu o pavio?
 
 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Bravura e Brilho

É impressionante como há mais de 10 anos essa figurinha entrou na minha vida e desde então vem me melhorando. É motivo de uma grande alegria para mim.

Talvez por ser muito novo ele ainda não tenha como mensurar a importância dele para mim, porém tenho a impressão que ele já tem consciência disso.
 

É isso. Quando escuto essa canção me lembro de você, +Sidarta Britto.


Bravura e Brilho
+Siba Veloso
O dia acaba de amanhecer
O meu herói vem me despertar
Já preparado pra combater
Os inimigos que vão chegar
Naves de raios destruidores
Dragões gigantes devoradores
Lobos de sopros arrasadores
Ciclopes de olhos assustadores

As naves são banidas dos céus
Cabeças de dragão vão rolar
Os lobos vem lamber os seus pés
Ciclopes já não podem enxergar

Deu pra saber:
Que o meu herói tem poder
De usar espada e voar
De ser veloz e vencer
O meu herói tem bravura e brilho

Mas dá pra ver:
Que quando o sono bater
Ele vai se aproximar
Pedir meu colo e dizer
Que vai parar de lutar
E aí pode até ser
Que o tempo deixe eu contar
Antes dele adormecer
Lendas de heróis pra embalar
Meu filho

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Senadores não podem se responsabilizar pelo que não dominam.

Reproduzo a entrevista feita pelo Senador Lobão Filho (PMDB-MA) ao Estado de São Paulo sobre a obrigação dos senadores a se comprometerem com a defesa intransigente da ética no seu juramento de posse.

fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,o-que-e-etica-para-voce-pode-nao-ser-para-mim-a-etica-e-abstrata-diz-lobao-filho,1060902,0.htm

Segundo o Senador, isso "poderia dar margem a interpretações perigosas" e "gerar problemas de conflito" no Senado. Ora, a Ética pode até ser vista como assunto subjetivo, se enveredarmos pela axiologia e pela estética, mas não é o caso. Se há um código de conduta então ele deve ser respeitado por quem estiver na função, independentemente do seu julgamento. Ele é um servidor público (embora aparente esquecer desse detalhe).

Depois, julga que a Ética não seja tão importante para a atividade parlamentar ou relevante para a atividade política. Essa afirmação é de uma imbecilidade medonha e para mim beira o escabroso. Um político que diz isso mostra para quais valores ele coopera. Platão diria se tratar de um idiota. Nem mais nem menos.

O Senador aparenta esquecer que exerce um cargo público e nesse sentido todas as pessoas que tenham envolvimento com ele enquanto exerce essa função devem ser investigadas. O direito à privacidade deve ser garantido por lei para todos, desde que não vá de encontro à coisa pública.

Mas acho que ele não pensa dessa forma, afinal de contas, o que é ético para ele pode não ser para mim. Ainda bem.

domingo, 28 de julho de 2013

Em defesa da força policial


Primeiramente quero dizer que sou um pacifista. Acredito no diálogo, na tolerância e estou me empenhando seriamente a árdua tarefa de mais compreender, que ser compreendido.

Então porque um texto para defender a força policial?

Violência

Indo além das querelas existentes sobre as circunstâncias naturais - e mesmo sociais - da violência, me chama atenção o fato de nós enquanto seres viventes tenhamos que a todo custo afirmar nosso ser-próprio perante um não ser. Em outras palavras, sobreviver. Afirmar nossas circunstâncias a todo momento requer alguns sacrifícios de outrem. Numa visão mais grosseira, podemos pensar o sistema ecológico e nele perceber a dinâmica da uma cadeia alimentar. Sacrificamos, isto é, transformamos as outras formas de vida em formas de prolongamento da nossa. Metabolizamos. Numa concepção da Filosofia da Vida, o metabolismo é uma manifestação genuína da liberdade, prefigurada já no orgânico. Viver é metabolizar, que é sacrificar, que é violentar. A existência é violenta, ontologicamente falando.

A violência que eu quero falar aqui está num outro nível. Apesar de fazer parte desta violência maior que falei anteriormente, porque é coisa da vida, a violência está fora desse contexto vital porque além desse processo ontológico envolve uma relação de intencionalidade e de propositalidade - como diria Schiler. Me refiro a violência abusiva. A violência como abuso de poder.

Partindo de uma visão restrita e vulgar, a violência é imposta a outrem através do poder exercido. Um médico que pelo seu saber exerce poder sobre o paciente (olha a intencionalidade da palavra), um professor que ensina e um pai que educa estão nesta mesma esteira. As correções por meio de orientações e castigos são formas "ortoéticas" de se dizer quando, como e porque as coisas devem ser. Atentem que nos casos abusivos propositadamente se omite o 'porque' das coisas.

O assaltante que sorrateiramente rouba a casa alheia, o empresário que manipula balancetes e forja falsos resultados e o político que negocia o bem comum privadamente são todos violentos e se olharmos honestamente, não haveria motivos para isso. 

Eu vejo a polícia nesse meio termo, pendendo para o primeiro grupo de casos. Quando o policial procura cumprir e fazer cumprir o que rege a lei, atuando de maneira pedagógica e justa, sua presença e ação são desejáveis e necessárias. Entretanto, ao agir de maneira degenerada descamba para o segundo grupo, que claramente abusam os outros.



Polícia

As instituições sociais existem para proteger a sociedade através de regras e padronizações que sancionadas e aceitas pela própria sociedade. A função das instituições seria manter a ordem e satisfazer as necessidades dos indivíduos. Neste sentido podemos entender a essência conservadoras das instituições, que exercem uma pressão contrária às mudanças para garantir com isso a manutenção da ordem.

Institucionalmente, a polícia tem um papel fundamental na manutenção da organização e na coibição desses desvios. O Estado autoriza a essa instituição - e apenas a ela - o uso da força. No cumprimento do dever, para restabelecer a ordem e fazer valer a norma o policial pode lançar mão desse expediente. E para lidar com todo esse poder, se faz necessária ordem rigidamente hierarquizada. Segundo a lei que rege a corporação, Disciplina e Hierarquia são a base institucional da Polícia Militar, em que a autoridade e a responsabilidade se eleva de acordo com o grau hierárquico: Quanto maior o posto, maior o poder e consequentemente a responsabilidade pelos outros.

Assim, o policial ao reprimir um ato de baderna faz valer essa prerrogativa, garantida e legitimada pelo Estado. Por isso o Oxford English Dictionary define a violência como o “uso ilegítimo da força”. Mas existe uma linha muito tênue separando a força da violência. Quando o policial está na rua, essa linha divisória pode simplesmente desaparecer entre um golpe de cassetete e outro, para ficar apenas na violência objetiva.

A necessidade da polícia nas ruas é legitimada pela tradição em para manutenção do controle social. Coibir o crime, prender os culpados e levar segurança e paz para a população. A imagem do policial nas ruas como o homem-da-lei e o aparato coercitivo que ele dispõe faz desse homem um ser temido. Todo esse poder materializado em uma pessoa fardada explica o desconforto que muitas pessoas sentem quando percebem policiais nas proximidades.

E nas periferias isso é uma realidade ainda mais acachapante.

O perfil socio-econômico do policial que está nas ruas é paradoxalmente bem próximo aos daqueles que normalmente sofrem a atuação policial: São pessoas de classe média/classe média baixa, muitos com uma formação escolar deficiente, possuindo não raramente o estudo básico completo e morando nas periferias das cidades. Recebem um salário muito baixo e uma enorme cobrança pela eficiência e cuidados prestados. Não é uma profissão elitizada e há muito não detém aquele brilho e o respaldo social das antigas cavalarias medievais. Assim, o risco eminente de corromper-se em troca de mais dinheiro e mais respeito é visível. Esse perfil socio-econômico traz uma grande vulnerabilidade para a própria corporação. Os salários baixos, o grande risco corrido e a opacidade social atrai um perfil que não é interessante para aquele que ostentará o bastião da lei nas ruas.

E falando ainda da formação do policial, a educação de um soldado hoje soa bem diferente daquela colocada por Platão lá na República. O mito da superioridade moral dos guardiões não funciona nos dias de hoje. Quem nos protegeria dos protetores? Chico Buarque numa música "Acorda, Amor" recomenda que chamemos o ladrão quando a polícia estiver em nosso percalço. Aliás, recomendo um passeio pela música popular, para vermos o estereótipo de policial desenhado nas letras. Hostil, violenta e corrupta.

Olhando o código de ética da polícia militar vejo o seguinte:

Art 29 - O sentimento do dever, o pundonor policial-militar e o decoro da classe impõem, a cada um dos integrantes da Polícia Militar, conduta moral e profissional irrepreensíveis, com observância dos seguintes preceitos da ética policial-militar:


I - amar a verdade e a responsabilidade, como fundamentos da dignidade pessoal;
II - exercer, com autoridade, eficiência e probidade, as funções que lhe couberem em decorrência do cargo;
III - respeitar a dignidade da pessoa humana;
IV - cumprir e fazer cumprir as leis, os regulamentos, as instruções e as ordens das autoridades competentes;
V - ser justo e imparcial nos julgamentos dos atos e na apreciação do mérito dos subordinados;
VI - zelar pelo preparo próprio, moral, intelectual e físico e, também, pelo dos subordinados, tendo em vista o cumprimento da missão comum;
VII - praticar a camaradagem e desenvolver, permanentemente, o espírito de cooperação;
VIII - empregar todas as suas energias em benefício do serviço;
IX - ser discreto em suas atitudes e maneiras e em sua linguagem escrita e falada;
X - abster-se de tratar, fora do âmbito apropriado, de matéria sigilosa de qualquer natureza;
XI - acatar as autoridades civis;
XII - cumprir seus deveres de cidadão;
XIII - proceder de maneira ilibada na vida pública, e particular;
XIV - garantir a assistência moral e material ao seu lar e conduzir-se como chefe de família modelar;
XV - comportar-se mesmo fora do serviço ou na inatividade, de modo que não sejam prejudicados os princípios da disciplina, do respeito e do decoro policial-militar;
XVI - observar as normas de boa educação;
XVII - abster-se de fazer uso do posto ou graduação para obter facilidades pessoais de qualquer natureza ou para encaminhar negócios particulares ou de terceiros;
XVIII - abster-se, na inatividade, do uso das designações hierárquicas quando:
a) em atividades político-partidárias;
b) em atividades comerciais;
c) em atividades industriais;
d) para discutir ou provocar discussões pela imprensa a respeito de assuntos políticos ou policiais-militares, excetuando-se os de natureza exclusivamente técnica, se devidamente autorizado; e
e) no exercício de cargo ou função de natureza civil, mesmo que seja da administração pública.
XIX - zelar pelo bom nome da Polícia Militar e de cada um de seus integrantes, obedecendo e fazendo obedecer aos preceitos da ética policial-militar.

Discursos que apontam para caminhos diferente do que geralmente se vê.




No vídeo acima, utilizaram de inteligência e sarcasmo para confrontar o discurso e a prática da Polícia Militar. Evidente que o foco se concentrou em São Paulo nas manifestações de junho desse ano, e sendo mais uma caricatura que propriamente um retrato, nos dá outros elementos a pensar. Talvez o que se passa no vídeo não seja toda a polícia que é assim, mas certamente a polícia É assim!

Esse é um grande indicativo que vivemos num Estado falido e que agoniza sufocado pelo seu tamanho desproporcional e pela ineficiência de suas instituições, incluindo (principalmente) as pessoas que dela fazem parte.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O pit bull de passeata

http://revistapiaui.estadao.com.br/assets/media/images/artigos/1937/AH1372803251x9532.jpg
Fiz uma versão maneiríssima da musiquinha “Eu sou baderneiro/ com muito orgulho/ com muito amor” com batida eletrônica

Antes de mais nada, quero deixar claro que não tenho esse papo de ideologia política. Quando chego nas paradas de manifestação e protesto, enfio a mão esquerda em barbudinho radical e finalizo coxinhas nervosinhos com um cruzado de mão direita. Sou democrático.

Isso não impede que eu esteja sempre antenado nas demandas dos jovens brasileiros. Tenho uma puta consciência. Primeiro, veio a tendência globalizada das músicas gringas nas boates, e eu lá no agito. Depois, a anarquia das micaretas, muita mulherada e cerveja gelada. Aí veio o conservadorismo das quintas-feiras com música sertaneja, e depois o hedonismo meio babaca dasraves. Agora o que está bombando são as passeatas. Depois dizem que a juventude é acomodada, parceiro. Estamos sempre ligados nesses lances.

O maneiro é que todos esses eventos acontecem exatamente da mesma maneira: a mulherada pira e a testosterona ferve. Eu, enquanto macho alfa, saio esbarrando na galera à caça das gatinhas ou de uma encrenca. Não necessariamente nessa ordem. Meus heróis morreram de overdose – de anabolizantes – e meus inimigos vão sentir o poder do meu punho fechado.

Atravessei a juventude sempre lendo os códigos exigidos para cada ocasião. Se antes vestia camisa polo, chapéu de vaqueiro ou abadá, agora saio de subversivo, escondendo o rosto com a camisa. A mulherada, aliás, tem até olhado mais para mim. As mina pira nos subversivos. Beijei muito uma loura do PCR, que gritava “Revolução, revolução, vem pro meu partido!”. Uma militante do PCO deu mole pra mim, mas não me amarrei na estampa da criatura. Cabeluda demais nos lugares errados. A esquerda costuma ser peluda demais.

Semana passada, fiz um cercadinho na concentração da avenida Rio Branco e cobrei 15 reais de consumação mínima. Uns camaradas do PSOL chegaram com um papo de centavos e eu deitei dois logo de cara. Comuna pé de chinelo não dá. A gente não quer só centavos. Por que não uns dólares? O ingresso no meu quadrado era uma camiseta da Brahma com uma estampa do Che Guevara, filho do Fidel. Ficou irado. A partir de meia-noite, tinha coquetel molotov e uísque com energético à vontade.

Fiquei tão amarradão que fiz até uns cartazes no pré-night aqui em casa: “É catraca livre ou roleta-russa” e “Abaixo o sarrafo”. Fiz uns molotov com as garrafas de Absolut que sobraram.

O foda é que um comuna do PSTU resolveu desafiar minha livre-iniciativa e arranquei a barba dele na unha. Devia era ter tirado com uma foiçada de direita e uma martelada de esquerda. Para minha surpresa, a galera começou a gritar “Sem partido!”, “Sem partido!”. Para contrabalançar, sapequei uma rasteira num engomadinho que pedia o impeachment da Dilma. O cara queria golpe. Não precisou pedir duas vezes. Já disse que meu movimento de punho é apartidário.

Ainda fiz uma versão maneiríssima da musiquinha “Eu sou baderneiro/ com muito orgulho/ com muito amor” com batida eletrônica. Vandalizei nas carrapetas. No fim da noite a coisa ficou embaçada, só sei que estava na esquina da avenida Paulista com a rua Uruguaiana. Fiquei em dúvida se era Rio ou Sampa. O bagulho ficou louco. Fiquei alienado. No dia seguinte já amanheci com uma dor de consciência política de rachar. Tive que tomar três Cefalives.

Talvez alguns invejosos com meu sucesso, uns afetadinhos sem testosterona, tentem abafar meus ventos viris de mudança. Mal sabem eles que aprendi a aplicar estrangulamentos no padrão Fifa. Um desses camaradas me viu quebrando uma vitrine e me jogou um xaveco. Disse que eu não tinha consciência, que eu era um contrarrevolucionário. Enfiei logo um perfume Jequiti no olho dele. Vai derrubar a Bastilha, mané! Se não fosse o sargento do Bope me botar pra dormir com uma bala de borracha na testa, eu detonava o cara.

Confesso que tenho predileção em mirar minha energia revolucionária naqueles camaradas brancos que ficam mugindo “Sem violência”, “Sem violência”. Não quer violência, vai pra Disney! Tá com medo? Chama o papai! Devem ser vegetarianos, ecochatos. São do tipo inofensivos, criados pela avó. Com esses, eu faço strike.

Fico também atento a situações que despertam meu interesse. Quando pego um hippie de butique oferecendo uma flor para um policial, o sapeca-iá-iá-na-fuça vai com gosto. O que mais me irritou esta semana foi um cara dizendo que era da Terceira Internacional dando porrada num que era da Quarta. Que babado é esse? Eu sou Grêmio, o cara me vem com Internacional? Tá maluco? E não é que chegou um bando com bandeiras vermelhas com uma estrela branca? Ah, meu irmão, deve ser a organizada independente. Desci o porrete. Me chamaram de fascista. São uns bananas. Porrada faz parte, pô. Malandros mesmo são aqueles carecas que pintaram com canivete e corrente. A barra pesou, atropelei uns três. Me chamaram de comunista. Que papo mais mariola. Eu sou é democrata! Dei neles e nos inimigos deles, os moicanos. Esses são de esquerda, mas não aguentam o tranco. Tudo florzinha. Tiranizei de mão aberta. Vão quebrar banca de jornal, bando de trouxas!

A coisa foi nessa base a semana toda. Me amarrei na exibição de músculos da democracia brasileira. Queria nocautear uns deputados, uns vereadores, meia dúzia de senadores, mas não rolou. Os caras não pintaram na área. Mas confesso que estou cansado. Bater nesses pés de pano me deu até distensão muscular. Meu bíceps está um caco, véio.

sábado, 13 de julho de 2013

FW: Você já leu Lênin? É bem curtinho, leia!...IMPORTANTÍSSIMO CONHECER.....


Recebi esse email de uma pessoa amiga. A julgar pelo texto curto, a formatação da mensagem e de quebra uma apresentação em anexo, essa mensagem preencheria todos os requisitos para SPAM e naturalmente iria para o meu lixo eletrônico.

Mas dessa vez eu fiz diferente. Li os tais 'mandamentos do Lênin' e achei que valeria a pena escrever algumas opiniões minhas por aqui. Então vou falar um pouco sobre a mensagem e depois sobre o conteúdo dos slides.


Penso que quando encaminhamos uma mensagem de e-mail ou damos uma importância a postagens feitas nas redes sociais, queremos com isso mostrar que estamos em sintonia com o conteúdo, e em certo sentido, concordamos com o texto. Longe de querer discutir política por aqui ou pelo email (prefiro pessoalmente), quis fazer esse alerta a você e a quem mais interessar, que essa mensagem acima é tendenciosa e extremamente deturpada.


Também não venho defender aqui nenhum tipo de ideologia, porque tenho o entendimento que cabe a cada um ter e cultivar as suas próprias convicções, através do exame consciente e do estudo constante. E que independentemente do entendimento que se tenha da política ou da moral vigente, é necessário fundamentar o argumento para que ele possa ser levado em consideração. É exatamente o que acontece com essa mensagem: Carece (e muito) de fundamentação.

Ora, que a mensagem seja antipetista é uma coisa bem óbvia. Eu não vejo problemas em criticar a gestão petista, que no frigir dos ovos para mim acaba sendo mais do mesmo. Houve progressos significativos em algumas áreas e retrocesso em outras, daí cada um que escolha seus critérios e defenda suas bandeiras. E se for criticar, que esta seja bem feita e elaborada de forma honesta. Esse slide não faz assim. Pelo contrário, mistura dois momentos históricos e políticos diversos, e cria uma conexão aparente entre eles, para dar um ar de verdade e 'ciência' ao que se diz.

De forma perigosa e ingênua mistura o Leninismo (corrente política marxista, que defendia a intervenção estatal na economia e em outros âmbitos sociais) com o Socialismo, que é um conceito bem mais mais rico e amplo, com tantas sutilezas que nem se houvesse outros 100 'mandamentos' iguais a esses acima seria possível sintetizar toda pluralidade presente nesse sistema de pensamento. Além do que aprendi a desconfiar de qualquer checklist quando aplicado a teorias científicas.

Mas vamos focar apenas no texto. Do pouco que eu sei e estudei, não existe nenhum discurso ou mesmo texto do Lênin que contenha esses 'mandamentos', portanto, é mentiroso já quando anuncia ser de quem se diz. Saindo das questões de origem, vamos para as questões de fundamento. Vejamos:
1 - Corrompa a juventude, de-lhe a liberdade sexual
- Sendo a juventude a garantia de preservação e prosperidade de um Estado que se pretendia mundial, qual a necessidade de 'corromper' essa juventude?
- ​O que seria essa 'liberdade sexual'​ mencionada no primeiro slide? Liberdade de escolha dos parceiros (eu escolho com que quero me casar ou ter relações sexuais). Apenas em comunidades arcaicas e baseados em castas que há esse controle sobre os relacionamentos.

2 - ​Infiltre e controle depois todos os meios de comunicação
- ​Isso é bem verdade. ​Não só Lênin, mas praticamente TODOS os estadistas utilizam dessa prática. Tanto que muitos chamam os meios de comunicação de '4 Poder', dada a sua importância para a política de um país. Esse controle não se limita apenas aos Meios de Comunicação tradicionais, tampouco à antiga URSS. 
​3 - ​Divida a população em grupos antagônicos, incitando-os a discuss​õ​es sobre assuntos sociais;
​O único lugar onde as pessoas se tratam com igualdade​, justiça e respeito é na Utopia, de Thomas Morus.  
​4 - ​​​Destrua a confiança do povo em seus líderes
​- ​Vejamos: Lênin foi um grande estadista, líder de uma corrente de pensamento político. Destruir essa tal confiança não seria atentar contra a sua própria condição? Vamos examinar! 
​5 - ​Fale sempre em democracia e Estado de Direito, mas, tão logo haja oportunidade, assuma o poder sem qualquer escrúpulo;​
- Eu acho procedente essa afirmação, porque desde o surgimento da Democracia na Acrópole a demagogia está presente nos discursos e práticas dos políticos. De Platão à Maquiavel, seguindo por Weber e chegando à Chomsky, a lógica geral infelizmente não mudou.

6 - Colabore com o esbanjamento do dinheiro público, coloque em descrédito a imagem do país, especialmente no exterior, provoque o pânico e o desassossego na população por meio de inflação;
- Um dos alicerces do Leninismo foi justamente a formação de uma frente única, para deliberação e negociação das ações políticas. Não vejo como poderia haver esbanjamento de dinheiro e inflação, sendo a economia planificada e amarrada aos ditames do Estado. 
7 - Promova greves, mesmo ilegais, nas indústrias vitais do país;
8 - Promova distúrbios e contribua para que as autoridades constituídas não as coíbam;
9 - Colabore para a derrocada dos valores morais, da honestidade e da crença nas promessas dos governantes
- Esses três pontos vou comentar num bloco único. O interessante aqui é que ele fala sobre as greves, de ilegalidade, fala de distúrbios e valores morais que serão atentados por esses 'socialistas'. Esses últimos três mandamentos afastam a hipótese inicial de ingenuidade que levantei acima e confirma as minhas suspeitas de que essa peça foi montada por uma mentalidade tacanha e desonesta, que busca através do pânico, da desinformação e da deturpação forjar um quadro social estranho ao que de fato seria. 
10 - Procure catalogar todos aqueles que tem armas de fogo, para que sejam confiscadas no momento oportuno, tornando impossível qualquer resistência.
- A máscara já havia caído caiu. Neste último 'mandamento' é evidente a ruminação do referendo, ocorrido aqui em 2005, sobre o Estatuto do Desarmamento, momento importante da política nacional recente que envolveu toda sociedade num debate amplo em torno da questão das armas. Campanhas foram feitas e algumas organizações fizeram campanhas, mostrando seus interesses. No tal slide aparece um lacônico "(Ainda bem que votamos NÃO)".

Na sequência, dois slides com fundo verde e letras amarelas (nacionalismo ufanista?) alerta às pessoas 'menos esclarecidas' que essa decadência não se limita apenas ao âmbito financeiro, chegando ao âmago de nossas instituições. A "família, o estado de direito, o bem público, a religião etc... são os pilares que sustentam uma verdadeira democracia". Há controvérsias. O que sustenta a Democracia enquanto sistema político é a isonomia, a transparência das instituições e a igualdade de oportunidades.

É evidente que as instituições acima mencionadas corroboram para a existência de uma sociedade e para mim não faz sentido perguntar por isso, que é algo óbvio. A questão maior e acerca de QUAL modelo (se é possível caracterizar isso com propriedade) de instituição social garantiria essa democracia. O 'Lênin' provavelmente não respondeu no seu decálogo.
"Considerando que apenas 10% da população brasileira tem a intelectualidade suficiente para entender essa realidade, nosso dever estaria por conta de levar essa verdade ao conhecimento de pelo menos mais 9 pessoas. Isso não é muito se pensarmos que convivemos diariamente com um número de pessoas muito maior que esse."
Além de subestimar a capacidade do povo de entender que isso é uma asneira sem tamanho, o bastião da verdade ainda convoca todos à prática do spam. Porque se isso não é chamada pra spam, por favor me expliquem nos comentários.

http://knowyourmeme.com/memes/red-guy-blue-guy


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Amar é o Poder do Querer-Ser

Apegar-se a uma "coisa" ou "pessoa" em sua essência, quer dizer: amá-la, querê-la. Pensando de modo mais originário, querer significa essencializar, dar essência. Esse querer é que constitui a própria essência do poder, que não somente pode realizar isso ou aquilo mas também deixa uma coisa “vigorar” em sua proveniência, isto é, deixa que ela seja. O poder do querer é aquilo em cuja “força” uma coisa pode propriamente ser. Esse poder é o “possível” em sentido próprio, a saber, aquilo cuja essência se funda no querer.
Heidegger, [Carta] sobre o humanismo.

sábado, 22 de junho de 2013

A Juventude Javali foi protestar





Voltando ao habitual, aproveito para escrever aqui as minhas impressões sobre esse protesto ocorrido aqui em Recife contra o aumento das passagens de ônibus, no dia 20-06. Por se tratar de um relato sobre a minha experiência, então aceitem isso como algo parcial, pífio e limitado. Perdi o timing porque acabei escrevendo demais e não tive tempo pra fazer tudo em um só golpe como gostaria, mas tá aí.

Bem: ao sair de casa, sigo para o ponto de ônibus como de rotina, e lá encontro algumas pessoas devidamente paramentadas para o protesto: cartazes, "carinhas-pintadas" e algumas vuvuzelas.
Legal, pensei comigo mesmo.
Passou o primeiro ônibus que levaria ao ponto de concentração, e apenas eu dei o sinal para parada.
Achei estranho, mas, ok.
Teria sido o único a subir, não fossem colegiais, que também queriam seguir para o protesto.
Mas antes das garotas subirem, a conversa:

- Motorista, esse é o ônibus que leva para o protesto?
- Protesto? Não! Esse ônibus faz o mesmo roteiro de todos os dias. Sei de protesto não.
- E qual o ônibus que leva para o protesto?

Pensei de novo comigo mesmo: Elas não sabem pra onde o ônibus estava indo, nem onde seria a concentração. O motorista também não fazia ideia. Elas não me pareciam (julgo) ter hábito de pegar um ônibus. Ele (julgo) não estava informado do que estava acontecendo no mundo. Ri sozinho e divaguei um pouco: Elas imaginavam que o Governo havia criado uma linha especial... Mas isso só acontece no Carnaval.

Cortei o assunto e disse pra elas que podiam subir, que o ônibus passaria por lá. Reticentes, elas subiram. Seguimos para a Praça do Derby. As ruas muito tranquilas me indicavam que alguma coisa estava acontecendo, mas que para mim estava dentro do esperado, afinal de contas, no evento criado no Facebook haviam mais de 100.000 pessoas confirmando participação.

Ri sozinho enquanto lembrava o quão maravilhoso é andar ônibus a essa hora da tarde sem ter que enfrentar engarrafamentos! Parecia até feriado! Normalmente em feriadões a cidade fica livre e os ônibus vazios, mas como tinha muita gente paramentada no ônibus, estava me sentindo num dia de Carnaval. O ônibus seguiu até metade do caminho. Tivemos que completar o resto do percurso a pé, porque as vias estavam fechadas. Assim como eu, muitas outras pessoas estavam seguindo o mesmo percurso. No caminho outras mais foram se chegando e em pouco tempo já éramos uma multidão. No caminho, pessoas com caras pintadas, cartazes levantados e algumas palavras de ordem. Não havia ao longo do trajeto nenhum bloqueio policial, mas os caras-pintadas já ensaiavam um coro pedindo a não-violência, com a mesma entonação (incluindo o sotaque) das imagens que chegavam dos protestos de São Paulo.
Achei estranho e aquele sotaque forçado, mas, beleza! Ponderei que esse talvez fosse um dos efeitos colaterais da globalização.
Chegando à Praça do Derby, vi muita gente! Mas muita gente mesmo! Nem acreditava que seriam tantas pessoas assim, e por um momento pensei na força que todo esse pessoal organizado poderia realizar.
Mas esse pensamento não foi muito longe.
Pessoas se abraçando, registrando os encontros e tirando fotos ao lado da bandeira nacional, pintando cartazes e retocando a guache verde e amarela para dali a pouco, iniciarem a marcha rumo ao centro da cidade.
Como alguns medias disseram depois, parecia mais um desfile cívico.

Encontrei alguns amigos, trocamos ideias a respeito do movimento e concordamos que apesar dos tropeços, deveríamos estar ali para vivenciar aquilo tudo e depois transformar isso em reflexões. Isso aqui está longe de uma reflexão no sentido rigoroso do processo, mas já indica o que venho pensando. Iniciamos a marcha rumo ao centro. A multidão - já ensaiada - entoava o Hino Nacional (mas apenas a primeira parte) e o de praxe “Sou brasileiro”. Mas até aí, nada. Ao meu redor, um ambiente confortável até demais para um protesto. Pessoas sorridentes, mais fotos. Gente bonita, elegante e sincera, curtindo aquilo tudo numa relax, numa tranquila e numa boa.

Conversando com meu amigo, vimos que aquela camada social mais acidentada e vulnerável não estava ali. Ele me falou que mais cedo perguntou a um flanelinha se ele não entraria no manifesto, e ele respondeu secamente que aproveitaria o movimento para trabalhar mais e conseguir um trocado extra, porque estava com fome e precisava comer. Que a classe média historicamente tenha sido o pivô das transformações, isso é fato. Mas esse ímpeto de mudanças eu sinceramente não conseguia perceber. Precisávamos sair urgentemente dali. 

E no caminho, mais demonstrações parciais de amor à pátria.
Digo parciais porque o Hino nunca seguia até o final.

Vi pessoas na sacada de seus apartamentos observando a movimentação e filmando. Placas levantavam com os dizeres #VemPraRua e a multidão gritava em uníssono esse convite, gentilmente declinado pela platéia. Em cima do muro, jovens bronzeados de bermudão, óculos escuros e munidos de latas de cerveja cortejavam as meninas, que gentilmente declinavam. Tudo com muita civilidade e respeito, num ambiente bastante democrático. Clean, soft e light.

Em plena Avenida, ouvi um levante. Gritos na multidão desenfreados, aparentando ser um confronto com a polícia. Não era nada de mais: Fizeram uma ola, como dessas que se veem nos estádios e nas micaretas. Definitivamente, estava em plena “festa da democracia”, como alguns jornalistas costumam se referir ao período eleitoral. Era uma festa mesmo, puro entretenimento.
Não era um protesto para ser levado a sério.
Tanto que a polícia nem teve trabalho. Também não desejaria que tivesse, mas é que eu não via a indignação no rosto das pessoas como normalmente se vê num protesto. Afinal de contas, estávamos na rua pelo quê? Não havia clima de revolta, tampouco desobediência civil. Estava tudo muito pacífico, e aí quero salientar que existem muitas sutilezas entre o pacifismo e o passivismo. Por favor não confundam!

Vi que a coisa foi toda muito bem projetada, pasteurizada e embalada a vácuo. Na página do evento do Facebook, muitas enquetes foram lançadas, das quais destaco algumas: “Qual a cor da roupa que devemos ir?” “Que música devemos cantar lá?” “Quais as nossas principais reivindicações?” “E se chover?” “O que fazer se a polícia agir com violência?” “Pra onde devemos ir?” “O que fazer com as bandeiras dos partidos políticos?”

Apesar das superficialidades, aquele aglomerado me fez sentir uma força descomunal, produzida por aquela energia de multidão. Senti a força que existe e reside no povo, que embora esteja anestesiado, possui. Essa energia que indica uma força, demonstrada a todo momento nas bandeiras agitadas e em cartazes com dizeres como #OGiganteAcordou.
Aí eu pergunto: Como levar a sério uma multidão que diz que "saiu do Facebook para entrar para História" e na sua revolução se utiliza de virais de montadora de carro e de fábrica de uísque?

Pra mim, a coisa toda já deu o que tinha que dar, mas como precisava de ônibus para voltar para casa, precisava seguir até o Cais de Santa Rita. Para minha surpresa, na Pracinha do Diário ouvi as primeiras manifestações pelo Passe Livre. Para que vocês tenham uma noção do tanto que eu andei na passeata, fiz um mapinha, destacando o que achei relevante.



Depois disso tudo, fui para o Terminal de ônibus para poder voltar pra casa. E lá vi baterem o último prego do caixão. Dessa vez mais duas meninas, agora retornando do protesto para suas casas.

- Ei! Residencial Boa Viagem! Será que esse passa no shopping?
- Passa sim.
- E quanto é a passagem?


Falam de uma primavera brasileira, mas, meus amigos, estamos em pleno outono, e possivelmente caminhando para um longo inverno, com suas chuvas torrenciais. Falta muita luz pra essa juventude desabrochar e realizar uma verdadeira primavera.
Não adianta jogar carbureto, porque essas bananas não vão amadurecer assim.

Não sou o único desconfiado: Estamos brincando de revolução

UPDATE 2

Não acordemos esse gigante






segunda-feira, 17 de junho de 2013

Poema em linha recta

Eu Sou Melhor Que Voce [I'm Better Than You] by Moreno Veloso on Grooveshark

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 312.